Falta entusiasmo no governo Dilma com o meio ambiente, diz Ricupero (Entrevista)

Data: 27/05/2012
Autor(es): Liana Melo

Izabella Teixeira é a única comprometida com meio ambiente, diz ex-ministro

RUBENS RICUPERO defende Pnuma virar agência, mas admite que é difícil

O ex-ministro Rubens Ricupero, que esteve diretamente envolvido com a Rio-92, está convencido que, com exceção da ministra Izabella Teixeira (do Meio Ambiente), o governo da presidente Dilma Rousseff tem pouco entusiasmo pelas questões ambientais: “Izabella é uma das poucas pessoas do governo comprometida com a causa”.

A cutucada no governo não se restringe à falta de entusiasmo, mas também ao fato de o país anfitrião da Rio+20 não estar conseguindo costurar o consenso entre os países.

A resistência à proposta de transformar o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) numa agência especializada das Nações Unidas, como querem os europeus, talvez tenha sido fundamental para desestimular alguns políticos, como a chanceler alemã Angela Merkel, por exemplo, de participar da Rio+20.

Ricupero não acredita que a conferência aprove compromissos, mas apenas “a fixação de metas nos setores de água, energia e florestas”.  E diz ainda que será preciso garantir ajuda financeira para os países pobres, caso contrário a África não terá condições sozinha de enfrentar a crise ambiental.

O GLOBO: O Brasil não apoia a proposta de transformar o Pnuma numa agência especializada da ONU.  O senhor concorda com a posição brasileira?

RICUPERO: Passei dez anos na Conferência das Nações Unidas para Comércio e Desenvolvimento (Unctad), que não é um órgão independente da ONU, como é o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) ou o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef).  Acho que seria mais interessante elevar o status do Pnuma, mas sem transformá-lo numa agência especializada.  A própria Rio+20 teria poder para isso.  Para se criar uma agência é preciso que se aprove um tratado, o que demora muito tempo.  O caminho que os europeus estão querendo percorrer é bem mais demorado e difícil.

O fato de o Brasil não apoiar essa ideia pode ter influenciado a decisão de alguns chefes de Estado não virem à Rio+20?

RICUPERO: Se o Brasil tivesse apoiado a proposta dos europeus, de transformar o Pnuma numa agência, acho que a chanceler alemã Angela Merkel, por exemplo, viria.  Os políticos querem sair da Rio+20 com um resultado concreto para exibir à opinião pública dos seus países.  Talvez o Brasil tivesse que ser mais flexível.  Falo isso, mesmo não concordando com a proposta.  É preciso ter um pouco mais de flexibilidade para angariar apoio internacional.  Em 1992, a chave do êxito do Brasil foi que o país atuou não como um combatente, mas como um aproximador de posições.  O Brasil, em 1992, permitiu o consenso.  O Brasil fez de tudo para aproximar os desenvolvidos dos em desenvolvimento.  Hoje, o Brasil está muito comprometido com um dos lados, que é o lado do Brics.  Acho que o Brasil está começando a mudar de posição, mas talvez seja um pouco tarde.

O senhor acha que essa postura menos conciliatória é uma tentativa de mostrar força?

RICUPERO: Essa posição emana do fato de que o atual governo brasileiro não tem convicções ambientais muito fortes.  O Brasil acaba ficando do lado, nas negociações internacionais, dos países mais céticos, mais obstrucionistas.  É delicado dizer uma coisa dessas, até porque eu participei da Rio-92, mas, naquela época, o governo brasileiro tinha ministros entusiastas da causa ambiental.  Era um grupo coeso.  Hoje, a ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira, é uma das poucas comprometida com a causa ambiental.

A economia verde pode ser vista como uma janela de oportunidade?

RICUPERO: É exatamente isso.  A economia verde, além de alcançar um objetivo ambiental, leva ao crescimento econômico.

Na sua opinião, a medida de sucesso da Rio+20 está intimamente ligada aos acordos que venham a ser aprovados?

RICUPERO: Não acredito que saiam metas dessa conferência, nem datas.  O importante é que se aprove um plano geral que aponte para a necessidade de metas nos setores de energia, água e florestas.  E só depois se abra um espaço para negociar prazos e volumes, como se fossem as metas do milênio.

Mas senhor acredita que os países estejam dispostos a assinar acordos?

RICUPERO: O maior problema hoje é a África, que vai precisar de ajuda financeira dos países para implementar a economia verde.

Publicado: 26/05/12 - 21h08 Atualizado: 27/05/12 - 1h26

Fonte: O Globo Online

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