'Brasil ganhou mais consciência ecológica' (Entrevista - Delfim Netto)

30/04/2012
Ex-ministro prevê conflitos, mas diz que recursos naturais e população controlada garantem crescimento brasileiro de 5%

São Paulo.  Na casa de dois andares ao lado do estádio do Pacaembu, em São Paulo, onde o economista e ex-ministro Delfim Netto, 84 anos, mantém a sua consultoria Ideias, uns 20 periquitos e outra dúzia de pássaros variados fazem um barulho infernal no jardim arborizado.  Delfim não liga.  Eles estão ali demarcando território e usando seus recursos para sobreviver, diz ele, como o homem há milênios.  A mesma lógica ele aplica para embasar suas expectativas para a Rio+20.  Ainda que a preocupação ambiental tenha crescido, os diferentes estágios econômicos, o crescimento populacional e a disponibilidade de recursos naturais é que definem até que limite os países podem crescer sem destruir o meio ambiente.  Conflitos serão inevitáveis.  Não há como o planeta sustentar nove bilhões de pessoas com renda de US$ 20 mil cada.  Mas ele é otimista com o Brasil, que pode crescer 5% sem degradar a natureza por causa da abundância de recursos, energia renovável e com uma população que aumenta menos de 1% ao ano.

SÃO PAULO.

O GLOBO: Na época em que o senhor era ministro no governo militar, falava-se em sustentabilidade?

DELFIM NETTO: Não se falava.  A primeira vez que se tocou nesta questão foi na construção de Carajás.  O presidente do Banco Mundial, o ex-secretário de Defesa dos EUA Robert McNamara, depois daquele estrago no Vietnã e acho que num processo de autopunição, introduziu o conceito de conservação do meio ambiente para aprovar qualquer projeto.  Carajás foi o primeiro projeto que seguiu as condições que, naquela época, eram consideradas o mínimo necessário para um projeto ser considerado sustentável.

DELFIM NETTO:

É possível crescer a taxas necessárias para tirar da miséria milhões e, ao mesmo tempo, preservar o meio ambiente?

DELFIM: O american way of life acaba sendo o objetivo do mundo inteiro, não vamos ter ilusão.  Mas neste tema, temos um problema grave, porque uns (países) estão muito avançados e outros, não.  Você não pode dizer que o Brasil agora tem que permanecer no nível que está.  O Brasil tem mais recursos que os outros e pode de fato crescer mais que os outros.  Você tende a caminhar para um mundo onde as tensões serão muito mais visíveis.  Não é à toa que o Brasil sabe que precisa de uma Força Militar dissuasiva.  Porque toda a potência tem que ter três autonomias: alimentar, energética e militar.  O Brasil não precisa de autonomia militar, mas de autonomia alimentar e energética.

DELFIM:

Os EUA vão bem?

DELFIM: O país perdeu a autonomia energética e está reconstruindo-a agora.  Eles avançaram dramaticamente nos últimos dois anos e estão buscando a sua independência energética, desenvolvendo a economia nesta direção e resolvendo dois problemas ao mesmo tempo.  Manter um oleoduto com o Oriente Médio custa aos EUA 300 mil barris de petróleo por dia, que é o quanto gastam as tropas americanas fora dos EUA para garantir a chamada pax americana, o que, por sua vez, mantém o oleoduto.  Os EUA estão fazendo uma revolução da produção energética na direção da sustentabilidade.

DELFIM:

E China?

DELFIM: A China sabe que tem limitações importantes.  Eles têm uma reserva de carvão gigantesca e estão descobrindo petróleo, mas são fontes de crescimento altamente poluidoras.  A China não tem as condições para produzir energias renováveis.  Para produzir energia usando o sol, você precisa do sol e de água.  Sol provavelmente ela tem.  Água, não.  Aliás, a água vai ser o negócio mais crítico nesse processo.  As relações entre Índia, China e Paquistão estão muito misturadas com as disputas pelo controle das fontes de água na região.

DELFIM:

A previsão é de conflitos?

DELFIM: Não tenho dúvida.  É difícil convencer as pessoas, simplesmente, de que não cabe todo mundo no mundo.  Nós temos hoje sete bilhões de habitantes.  Não cabem no mundo nove bilhões com US$ 20 mil de nível de renda per capita.  Tem que comprar um outro planeta Terra.

DELFIM:

E como se resolvem os conflitos entre a pretensão de crescimento dos emergentes e o histórico de poluição dos países ricos, que também não abrem mão de crescer?

DELFIM: Você precisa ter uma enorme crença na racionalidade para imaginar que isso vai ser feito conversando, né?  A situação é muito complicada, mas eu acho também que há um pouco de exagero.  O Brasil não precisa crescer mais a 7% ao ano porque quando ele crescia a 7,5%, a população crescia a 3%.  Hoje, se ele cresce 5%, a população está crescendo menos de 1%.  É o mesmo ritmo de crescimento per capita.  Quer dizer, o Brasil tem algumas vantagens e o que ele precisa é preservar essas vantagens.

DELFIM:

O Brasil tem condições de ser um dos protagonistas dessa discussão ambiental?

DELFIM: O Brasil tem uma vantagem, porque temos menos restrições ecológicas do que outros.  Temos condições muito melhores seguramente em uso de fontes de energia renováveis.  E a consciência ecológica chegou no Brasil de maneira muito interessante.  Quando tinha 12 anos, meu avô tinha um pequeno terreno na Vila Carrão - que dava a impressão de ser Minas Gerais de tão longe -, onde a gente caçava passarinho para comer.  Hoje, se contar para o meu neto que você vai caçar um passarinho para comer, ele te mata, te considera um troglodita e te expulsa da família.  Brasil mudou, num processo de educação, um processo civilizatório.  Temos mais consciência ecológica.

DELFIM:

E a diferença entre os países a que o senhor se referiu?

DELFIM: O que eu estou dizendo é que, para alguns países, é compatível e para outros, não.  O Brasil tem 200 milhões de habitantes, terra, sol, água, petróleo e recursos naturais adequados, de modo que o Brasil pode crescer 5% ao ano nos próximos nos, mesmo porque sua população já está atingindo seu pico.  O país é dos poucos que têm dimensão territorial, nível de recursos naturais e população que obviamente é menor que aquela que seria sustentável com esse nível de recursos naturais.  Então, com um pouco de inteligência, o Brasil pode manter esse nível de crescimento.

DELFIM:

Os EUA também se encaixam dentro dessa definição?

DELFIM: Os EUA também.  Já a China tem um problema de água.  O Brasil tem outras vantagens.  Somos um país muito mais tranquilo, temos uma Constituição que está funcionando.  Dizer que o país não tem projeto é conversa mole.  O projeto está na Constituição de 88, que diz claramente o seguinte: eu quero uma sociedade onde se aumente o bem-estar das pessoas, que seja republicana - ou seja, todo mundo é sujeito à mesma lei, inclusive o governo -, que seja democrática - onde eu elejo um sujeito, posso reelegê-lo, mas também dispensá-lo no meio - e que seja uma sociedade aberta, que usa o mercado como um processo alocativo.  É isso que está na Constituição e é o projeto nacional.  Esse é o objetivo desejável porque a Constituição implica em igualdade de oportunidades.  Não interessa se eu fui produzido na suíte presidencial do hotel Waldorf Astoria ou se eu fui produzido num sábado à noite por um acaso no bairro do Ipiranga.  Uma vez que eu fui produzido, eu sou portador de direitos.

DELFIM:

Crescimento com redistribuição de renda e sustentabilidade são compatíveis?

DELFIM: Sem dúvida.  Você tem duas instituições: o mercado e a urna.  O mercado é muito bom porque permite a liberdade individual, o sujeito usar a sua capacidade de iniciativa e produzir com relativa eficiência.  Mas o mercado não produz igualdade.  E não adianta: o sujeito se sente melhor com menor desigualdade.  Então o Estado vem e corrige esse problema do mercado.  Quando o Estado é muito distributivo, o ritmo de crescimento é menor, porque se você distribuir muito mais hoje, significa que você vai investir menos e crescer um pouco menos amanhã.  Então essa combinação de crescimento com distribuição é uma coisa que precisa ser feita com muito cuidado.  Quem joga essa dialética é na verdade a urna e o mercado.  Se vem o governo querer distribuir o que não foi produzido, no próximo round o mercado acaba com ele e, em seguida, a urna.  Se o mercado é propriedade dos economistas que querem um crescimento rápido, grosseiro, não importa a distribuição, mas a eficiência, vem a urna e toca eles para a rua.  Então esse jogo entre os dois é que provoca esse crescimento um pouco mais virtuoso.  O Brasil pode crescer de uma forma sustentável e usando de forma eficiente os seus recursos.

DELFIM:

Num mundo onde organismos multilaterais enfrentam pressões por mudanças, qual o fórum ideal para discutir grandes questões de sustentabilidade?

DELFIM: Tem que expor esse processo claramente.  No fundo, cada um vai ter que se confrontar com o que tem hoje e com o que é capaz.  O caso dos EUA é fundamental, porque é a recuperação mais rápida e na direção correta.  Ele está na verdade substituindo energia do petróleo por energia mais limpa e avança nessa direção.  E o homem vai avançar nessa direção.  Há energia eólica, solar.  O homem está voltando para onde começou.  Quando começou, colhia frutas e plantas, queimava um pouco de madeira, usava as águas do rio para mover a roda.  Quando se olha, é sempre na mesma direção de libertar o homem para realizar a sua humanidade.  As coisas estão caminhando numa direção bastante razoável.  Mas há países que vão ter que se conformar com menos.  E não é uma coisa simples dizer para o sujeito: olha, infelizmente você ocupou um terreno que não sustenta esse nível de crescimento.  Mas o comércio internacional é uma solução muito interessante.

DELFIM:

Em que sentido?

DELFIM: O comércio é troca.  Eu tenho abundância de certos recursos, troco com quem tem menos esse tipo de recurso, mas tem outra coisa sobrando.  É parte da solução do dilemma.  Onde está dificuldade?  A gente sabe que um pouco de comércio é melhor que nenhum comércio.  Você não sabe é como se distribui as vantagens do comércio.  Mas eu não vejo fim trágico para isso, porque confio na racionalidade do homem.  E nas novas tecnologias.

DELFIM:

Qual a sua expectativa para a Rio+20?

DELFIM: Não vamos ter a ilusão que daqui vai sair alguma conclusão muito importante.  Nessa reunião, você vai subir um degrau na compreensão de que o mundo é finito.  E a compreensão de que o Brasil está cumprindo seu papel.  Todos esses novos projetos protegem o meio ambiente.  Na verdade, não há nenhum projeto que não destrua um pedaço do meio ambiente.  O que tem que fazer é com a maior eficiência possível.  É destruir menos para produzir o mesmo resultado.  Estamos quase no estado da arte na produção do único substituto de combustível líquido que tem 70% da energia do petróleo mas que pode ser produzido enquanto o sol durar.  Como provavelmente o sol vai durar ainda uns dez bilhões de anos, temos aí um tempinho razoável para ajustar.

29/04/2012

Fonte:

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